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  • Tanzania | 06/12/2011


Cruzamos a fronteira da Tanzânia e chegamos a Arusha. Rodar pelas estradas no pé do Kilimanjaro foi uma delícia.

 

Alguns dias depois estávamos chegando ao pequeno vilarejo de Magoma. A Ana, uma amiga brasileira, trabalhando para uma ONG (2Seeds), mora por lá há 2 anos e foi a nossa anfitriã.

 

O pessoal da “2Seeds” começou um trabalho diferente por aqui. Ao contrário do assistencialismo praticado pela quase totalidade das ONGs, muitas cheias de dinheiro, eles começaram pela mudança da Ana, que passou a morar no vilarejo integrando-se à população local. Nada de dinheiro, nada de assistencialismo e o foco todo na auto-capacitação desta e das próximas gerações.

 

O começo foi difícil na integração e aceitação de uma mulher estranha na comunidade. A conquista da confiança pelos lideres locais e por personalidades chaves do vilarejo foi fundamental. Mas como migrar de uma simples agricultura de subsistência, tradicional e de técnicas rudimentares, para algo que alavanque a qualidade de vida de todos?  O caminho passou pelo profundo entendimento das dificuldades técnicas e culturais locais, como a falta de diversificação das plantações, nenhum manejo de solo, nenhuma gestão da água e obviamente nenhum contato com o mercado fora do vilarejo. Buscando suporte com pessoas e instituições com conhecimentos técnicos, costuras políticas locais e na Capital, montou-se um plano de capacitação, visando diversificar a produção das frutas e legumes, aumentar a produção e minimizar os riscos climáticos.

 

Como chegar ao mercado em um país que não tem canais de distribuição e nem atacadistas? Como lidar com a rejeição às novidades como, por exemplo, um simples tomate maior do que o tradicional? Como motivar a adesão ao programa? Como garantir a continuidade através das novas gerações?

 

Com um orçamento praticamente só voltado à sobrevivência da pequena equipe, entre as dificuldades e resistências, chegou-se a um patamar incontestável de resultados práticos. O núcleo básico de capacitação passou a ser a escola e seus alunos. É lá que tudo acontece. O acesso às famílias se faz pelas próprias crianças que trazem seus pais para o programa. O conteúdo técnico veio de fora, de agrônomos e outros especialistas. Com acertos e erros, os resultados chegaram, a produção cresceu, o solo melhorou, as chuvas não estragaram tudo e as melancias tiveram aceitação no mercado da capital.

 

Andar pelas ruazinhas de terra do vilarejo com a Ana é algo emocionante. Falando em Swahili, as crianças a chamam de longe “Aaana!!”, os velhinhos nos chamam para entrarem nas suas casas para uma conversa. O som de “Aaana” ecoa por todo o vilarejo...  E assim conhecemos os lideres da comunidade, a carinhosa “bibi” (a vovó local), visitamos as plantações e almoçamos com as crianças da escola. A comida era arroz, feijão, legumes e banana. Para fechar o almoço, paçoca de amendoim! (Alguém tem alguma dúvida de nossas origens africanas?).

 

Eu nunca vi na prática tamanho reconhecimento de liderança como esse. E não foi só pelos resultados obtidos, mas pela maneira como se chegou lá, sem arrogância, buscando soluções através da própria comunidade, muita perseverança, sem dinheiro, mas com muito respeito e trabalho. O tempo todo o calor humano se faz presente, pelos sorrisos, abraços e demonstrações de carinho.

 

Liderança que faz a diferença é isso. É uma pequena gota em um oceano de dificuldades. A vontade era ficar mais e mais, mas tínhamos que seguir...

 

Acabamos aprendendo algumas palavras em Swahili. Sem saber você também conhece algumas. “Mambo” é “Olá”. “Simba” é “leão”. “Safári” é “viajem” e acredite, “Pic-Pic” é moto! “Pic-Pic Safári” é simplesmente “Viajem de Moto”! Foi uma experiência gostosa e inesquecível.

 

Não estava em nossa rota, mas tivemos que passar por Dar-es-Salaam, a capital, para pegar mais vistos. Dar-es-Salaam é uma cidade grande, cheia de transito, de vans, de vendedores, mas não nada de muito especial. Na embaixada do Malaui o formulário pedia, além de nome e passaporte, qual era a nossa tribo de origem... Boa pergunta essa...

 

Saímos de Dar-es-Salaam rumo ao sul em direção ao Malaui. É um longo trecho de estrada quase sem nenhuma estrutura e os vilarejos são raros. Nossa recompensa foi atravessar pelo meio da reserva Mikumi. Elefantes e girafas andando naturalmente a beira da estrada! Logo em seguida, passamos pelo Vale do Baobás de um visual cinematográfico.

 

De repente os 42 psi traseiros apontados no painel viraram 40, 38, 36 .... Pneu furado! Foi o tempo certo de parar no vilarejo por que passávamos. Em segundos uma roda de gente se formou em volta da moto. As crianças pareciam estar diante de uma nave espacial! Teria que trabalhar com uma platéia curiosa e pronta para oferecer ajuda no que fosse preciso! Uma peça de metal de uns 5 cm entrou em diagonal fazendo um respeitável furo no pneu. Depois da terceira tentativa o reparo ficou razoável. Vazava um pouco, mas dava para seguir. Eu tinha colocado esse pneu em Munique e ele teria que chegar até Johanesburgo, portanto todo cuidado e carinho com ele.

 

E assim fomos em direção ao nosso próximo destino, o Malauí.


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